Setembro 7, 2026

Housing First: o que a Finlândia ensina sobre o combate à situação de sem-abrigo

A Finlândia tornou-se uma referência europeia no combate à situação de sem-abrigo. No centro do trabalho desenvolvido pelo país está o modelo «Housing First» — ou «Habitação Primeiro» —, que encara a habitação como um direito humano fundamental e como o primeiro passo para reconstruir uma vida.

Ao contrário das respostas tradicionais, este modelo não exige que uma pessoa conclua tratamentos, encontre emprego ou demonstre estabilidade antes de ter acesso a uma habitação permanente. Primeiro é garantida uma casa. Depois são trabalhadas outras áreas, como a saúde física e mental, as dependências, o emprego, a gestão financeira e a integração na comunidade.

Uma casa que «mudou tudo»

A história de Vello Senkel, de 67 anos, ajuda a perceber o impacto deste modelo. Depois de ter sido despejado, viveu durante dez dias nas ruas de Helsínquia. Tinha sido diagnosticado com uma perturbação de personalidade borderline e enfrentava também a perda da companheira.

Senkel acabou por conseguir um apartamento numa unidade habitacional onde vivem outras 77 pessoas que também estiveram em situação de sem-abrigo.

Aos poucos, começou a reconstruir a sua vida. Voltou a cozinhar, toca guitarra todos os dias e recuperou rotinas e relações sociais.

Ter aquele apartamento, afirma, «mudou tudo».

A unidade onde vive segue o princípio «Housing First». Para além de uma habitação permanente, Senkel tem acesso ao acompanhamento de profissionais 24 horas por dia. Um apoio essencial para combater o isolamento e responder rapidamente a possíveis dificuldades.

Se os funcionários não tiverem notícias suas durante 72 horas, entram em contacto com ele. Todas as manhãs são servidos o pequeno-almoço e café, existe uma reunião comunitária semanal e os residentes podem realizar pequenas tarefas remuneradas, como a limpeza dos espaços comuns.

Num aviso colocado no edifício pode ler-se: «Tu és precioso».

A mensagem resume a forma como o acompanhamento é feito: com escuta, proximidade e respeito pela autonomia de cada pessoa.

Primeiro a habitação, depois o acompanhamento

O «Housing First» parte de uma ideia simples: é muito difícil tratar problemas de saúde, procurar trabalho, gerir uma dependência ou recuperar estabilidade emocional quando não existe um lugar seguro para dormir.

Por isso, a habitação não é apresentada como uma recompensa no final de um percurso. É a base que permite iniciar esse percurso.

Mas entregar uma chave não é suficiente.

Muitas pessoas viveram durante anos em situações de grande vulnerabilidade, marcadas por dependências, problemas de saúde mental, dificuldades económicas, perda de relações familiares e longos períodos de isolamento.

Marko Lahtela, responsável pela unidade onde vive Senkel, explica que construir uma relação de confiança exige tempo. O processo é «mais uma maratona do que uma corrida de velocidade».

Alguns residentes permanecem nestas unidades durante vários anos. Outros conseguem passar para formas de habitação mais independentes ao fim de poucos meses.

Não existe uma resposta igual para todas as pessoas. As necessidades, as dificuldades e os percursos são diferentes.

Habitação integrada nas comunidades

As unidades com acompanhamento permanente são apenas uma das respostas adotadas na Finlândia.

A maioria das pessoas que anteriormente esteve em situação de sem-abrigo vive em habitações acessíveis, distribuídas por diferentes bairros e comunidades.

Estudantes, idosos, pessoas com baixos rendimentos e antigos residentes de unidades «Housing First» podem viver lado a lado. Esta integração procura evitar a criação de espaços segregados e promover a participação de todos na comunidade.

A Y-Foundation, uma das principais entidades responsáveis pela implementação do modelo, possui mais de 19 mil habitações e é o maior senhorio sem fins lucrativos da Finlândia.

No total, o país dispõe de cerca de 400 mil habitações a preços acessíveis, o equivalente a aproximadamente 30% do parque habitacional.

Estas casas são disponibilizadas com base nos custos reais da sua construção e manutenção, sem o objetivo de gerar lucro.

Para Juha Kahila, diretor de relações internacionais da Y-Foundation, não basta aumentar a oferta de habitação. É também necessário garantir que as casas chegam a quem mais precisa.

Resultados que chamaram a atenção do mundo

A Finlândia adotou o «Housing First» como base das suas políticas de combate à situação de sem-abrigo em 2008.

Entre 2012 e 2023, enquanto o número de pessoas nesta situação aumentava em vários países europeus, a Finlândia seguiu o caminho contrário.

O número de pessoas em situação de sem-abrigo diminuiu mais de metade, passando de cerca de 8.000 para aproximadamente 3.400.

Estes resultados transformaram o país numa referência internacional. Mostraram também que uma política baseada em habitação permanente, acompanhamento individualizado e prevenção pode produzir mudanças profundas.

O modelo permitiu reduzir a dependência de alojamentos temporários e aliviar a pressão sobre os serviços de emergência, os hospitais e outras estruturas públicas.

Os seus defensores consideram que, a longo prazo, garantir uma habitação permanente pode representar um custo menor para o Estado do que responder repetidamente às consequências da exclusão habitacional.

Um sucesso que não está garantido

Apesar dos resultados alcançados, os progressos começaram recentemente a inverter-se.

O mais recente inquérito nacional registou 4.579 pessoas em situação de sem-abrigo. Trata-se de um aumento de 20% num ano e do segundo crescimento anual consecutivo.

Em Helsínquia, o número aumentou 25%, atingindo as 979 pessoas.

Entre as principais causas estão o aumento do custo da habitação e do custo de vida, os cortes nas prestações e nos serviços sociais e o agravamento dos problemas relacionados com dependências e saúde mental.

O crescimento foi particularmente visível entre as mulheres, os jovens com menos de 25 anos e as pessoas de origem não finlandesa.

Os serviços começaram também a receber mais pessoas empregadas e idosos. Um sinal de que o risco de perder uma casa já não afeta apenas os grupos tradicionalmente considerados mais vulneráveis.

As organizações que trabalham no terreno alertam ainda para a falta de lugares de emergência e para o aparecimento de novas formas de exclusão habitacional.

Há pessoas a dormir em centros comerciais, estações ferroviárias, casas de banho públicas e no aeroporto de Helsínquia.

Uma casa tem de ser um lar

A experiência finlandesa mostra que a habitação é indispensável. Mas mostra também que deve ser acompanhada por políticas sociais consistentes, serviços de proximidade e respostas adaptadas às necessidades de cada pessoa.

Uma casa não pode ser apenas um teto.

Tem de ser um espaço onde alguém se sinta seguro, respeitado e capaz de recuperar a sua autonomia.

«Um lar é um lugar que queremos decorar, onde queremos passar tempo», afirma Juha Kahila. «Podemos ser quem quisermos. É o nosso lugar seguro.»

O exemplo da Finlândia deixa duas grandes lições.

A primeira é que é possível reduzir significativamente a situação de sem-abrigo quando a habitação é tratada como um direito e acompanhada pelo apoio necessário.

A segunda é que nenhuma conquista é definitiva. Sem investimento continuado, prevenção e respostas sociais adequadas, os progressos alcançados podem desaparecer rapidamente.

Para o CASA – Centro de Apoio ao Sem Abrigo, esta experiência reforça a importância de olhar para cada pessoa para além da situação em que se encontra.

Reconstruir uma vida exige tempo, acompanhamento, estabilidade e dignidade.

Uma casa não resolve todos os problemas. Mas pode ser o primeiro passo para um novo começo.

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