Abril 5, 2022

“Como as cidades tratam quem vive na rua?” CASA marca presença em debate do jornal Público

“Como as cidades tratam quem vive na rua” foi o mote para um debate promovido pelo jornal Público, uma conversa que contou com a presença do diretor-geral do CASA — Centro de Apoio ao Sem Abrigo, Nuno Jardim.

A conversa, que abordou temas como a estratégia nacional para a integração das pessoas em situação de sem-abrigo, os impactos da pandemia nesta realidade ou a abordagem clínica ao problema, contou ainda com a presença de Henrique Joaquim, que coordena a Estratégia Nacional de Integração de Pessoas em Situação de Sem-abrigo (ENIPSSA), Fernando Paulo, vereador da Coesão Social da Câmara do Porto e coordenador do Núcleo de Planeamento e Intervenção Sem-Abrigo local, e António Bento, médico psiquiatra.

Questionado sobre se o perfil de quem está nas ruas está a mudar, Nuno Jardim afirma que este “é um fenómeno muito complexo”. “Não se trata de um único problema, é um conjunto de situações ou de problemas que podem surgir de diversas partes, seja a nível económico, a nível de saúde – mental, física ou consumos… É como um conjunto que faz implodir o processo do indivíduo e que pode fazê-lo chegar a esta situação.”

Sobre os dois anos anos de pandemia que passaram, o diretor do CASA sublinha que este período “trouxe novos fatores para a rua” e fez aumentar em 75% os pedidos de ajuda ao CASA em 2020. “Muitas das pessoas que estávamos habituados a ver na rua não deixaram de estar, mas surgiu um novo tipo de pessoa – que tinha o seu trabalho… começaram a aparecer pessoas jovens, muitos imigrantes, muitas pessoas em que a situação socio-económica era muito ténue.”

Nuno Jardim dá o exemplo de pessoas que trabalhavam, por exemplo, no setor da hotelaria, turismo e restauração e que começaram a fazer pedidos ao CASA para poderem alimentar-se. Aliada a uma situação económica frágil, esteve a precariedade na habitação.”

Por outro lado, esta situação de emergência obrigou a que surgissem novas formas de resposta e mais eficazes ao drama das pessoas que caem nas ruas. Mas, ressalva o diretor do CASA, “a questão da prevenção é um dos fatores primordiais para que consigamos resolver esta situação. Se nós não impedirmos que mais pessoas venham parar à rua, não vamos também conseguir ser muito eficazes com quem já está nesta situação e vamos ter sempre um problema.”

Durante a conversa, foi abordada a temática da doença psiquiátrica, com o médico António Bento a pedir investimento em matéria de saúde para a população em situação de sem-abrigo, apontando que o foco tem sido a perspetiva social e da pobreza, quando a maioria das pessoas nesta situação são doentes mentais “em risco de morrer na rua.”

Sobre a componente da saúde mental, Nuno Jardim admite que existe falta no terreno desta componente da saúde: “De facto, essa vertente fica sempre um bocadinho para trás. Até nas equipas de rua ficamos um pouco ‘descalços’. Porque se ligarmos para o 144 a pedir alguma ajuda imediata, não há forma nenhuma de o fazer. Temos de desburocratizar todo o processo.”

Nuno Jardim deseja que os decisores do futuro “percebam este problema, percebam que é estrutural na nossa sociedade” e apela ainda a que “todos os recursos, todas as estruturas” funcionem em conjunto “em prol do cidadão, em prol da problemática, para melhorar a vida dos outros.”

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