Mas há uma realidade menos visível, raramente dita com clareza: a boa vontade, por si só, não sustenta o trabalho social. No terreno, o desafio não é apenas encontrar pessoas dispostas a ajudar. É encontrar pessoas dispostas a continuar a ajudar.
Organizações sociais que trabalham diariamente com populações vulneráveis não funcionam por impulso, funcionam por continuidade. Há horários, rotinas, pessoas que dependem daquele apoio como parte da sua sobrevivência. Mas, mais do que distribuir refeições ou organizar cabazes, há algo ainda mais essencial: dar atenção, escutar, olhar nos olhos, reconhecer a existência do outro. Mostrar que alguém se importa. Que aquela pessoa é vista. Que não está sozinha.
Esse tipo de presença não se improvisa. Não pode depender de “hoje posso, amanhã logo vejo”. Porque, para quem vive em situação de fragilidade, a maior carência nem sempre é material, é humana.
Esta dificuldade não é apenas perceção de quem está no terreno, é refletida em dados europeus.
Na União Europeia, estima-se que cerca de 23% a 24% da população adulta participe em atividades de voluntariado. Mas esta média esconde grandes diferenças entre países. Nos países do norte da Europa, como os Países Baixos ou a Dinamarca, as taxas podem atingir 40% ou mais da população envolvida em voluntariado.
Já em Portugal, os números são significativamente mais baixos:
• Cerca de 6% a 7,8% de participação em voluntariado formal
• Muito abaixo da média europeia
• Entre os valores mais reduzidos da União Europeia
Mesmo quando existe participação, há uma característica relevante: é mais pontual do que contínua.
Vivemos num tempo em que a vida está cada vez mais centrada no indivíduo. As agendas são cheias, as prioridades múltiplas, e o tempo livre é cada vez mais protegido.
Neste contexto, o voluntariado passa muitas vezes a ocupar um lugar secundário, algo importante, mas ajustável. O problema é que a necessidade de quem recebe ajuda não é ajustável. Quem depende de uma refeição não pode “reagendar”. Quem precisa de apoio não pode esperar por disponibilidade. E cria-se um desequilíbrio silencioso:
• necessidades constantes
• respostas intermitentes
Quando o compromisso falha, alguém tem de compensar. E, quase sempre, são os mesmos.
Há também histórias que raramente são contadas. No final de um dia de trabalho, quando já não há mais energia para dar e ainda assim se percebe que não há voluntários disponíveis e que, naquela noite, quem ficará sem apoio são precisamente aqueles que nada têm, alguém decide ir. Não porque é fácil. Não porque sobra tempo. Mas porque faltar, não é uma opção. E isso acontece mais vezes do que se imagina. No silêncio, sem reconhecimento, sem substituição.
Curiosamente, essas são também as noites que deixam uma marca difícil de explicar. Vai-se cansado, por vezes no limite. Mas regressa-se com uma sensação de leveza, de paz, de propósito cumprido; uma felicidade silenciosa que só quem vive este tipo de entrega consegue compreender. Talvez porque, no meio da exigência, há algo profundamente humano que se reencontra: a ligação ao outro.
Este não é um apelo à perfeição, nem uma crítica individual. Mas é um convite à reflexão. Ajudar não é apenas estar disponível quando é conveniente.
É, sobretudo, estar presente quando é necessário. Não é fazer muito, é fazer com consistência. Não é dizer “sim” muitas vezes, é cumprir o “sim” que se disse.
O trabalho social não se sustenta apenas com boas intenções. Sustenta-se com continuidade. Pequenos gestos, quando regulares, têm um impacto profundo. Uma hora por semana, cumprida com consistência, pode fazer mais diferença do que várias intenções dispersas.
Num mundo cada vez mais centrado no “eu”, ajudar o outro tornou-se uma escolha mais exigente. Exige tempo. Exige presença. Exige compromisso. Não é fácil. Não é sempre cómodo. Mas é essencial. Porque a solidariedade não vive de momentos. Vive de presença.
Porque, todos os dias, há pessoas que continuam a precisar. Não amanhã. Não quando for possível. Hoje. E é essa presença: simples, constante e humana que permite que organizações como o CASA continuem a existir, a chegar onde é preciso e a garantir que ninguém fica completamente sozinho. A solidariedade não vive de momentos. Vive de presença. E, por vezes, tudo começa com um compromisso simples: estar.
Priscila Lima – Coordenadora CASA Cascais
Vivemos num mundo repleto de desafios e desigualdades sociais. As pessoas em situação de sem-abrigo são uma parte vulnerável da nossa sociedade. Ajudar a melhorar as suas vidas é uma missão nobre e urgente. Junte-se a nós nesta missão.
Fazer DonativoSer voluntário é dar uma ajuda aos que mais precisam, um apoio vital quando tudo o resto falhou, uma esperança de que se pode dar a volta e fazer com que a população em situação de sem-abrigo fique mais perto da reinserção e de sair da rua.
Torne-se VoluntárioMorada: Rua Dr. João de Barros, 17G, 1500-230 Lisboa
Telefone: +351 217 269 286
Email: info@casa-apoioaosemabrigo.org