Outubro 1, 2026

Envelhecer sem abrigo: Será que precisamos de uma resposta diferente?

Que resposta estamos a oferecer a uma pessoa com + de 65 anos que está numa situação de sem abrigo e para quem o caminho da formação, do emprego e da autonomização habitacional já não é adequado?

Uma pessoa jovem que viva na rua, enfrenta enormes dificuldades, no entanto a uma pessoa idosa acresce os problemas de mobilidade, saúde, isolamento e maior dependência.

Com 65 anos, a pessoa em situação de sem abrigo não está apenas sem casa, mas exposta a uma situação de vulnerabilidade extrema. Podemos achar que a pessoa chegou a situação de sem abrigo por escolha própria, no entanto, as baixas reformas, as rendas elevadas, o desemprego ao longo da vida, o divórcio, o falecimento do companheiro, a ausência de suporte familiar, problemas de saúde ou dependências contribuem para esta situação. A solidão e o isolamento social dificultam o pedido de ajuda.

Uma estrutura de alojamento temporário destinado a pessoas em situação de sem abrigo, acolhe pessoas com idades, histórias de vida, níveis de autonomia e necessidades diferentes. O plano de intervenção tem de partir da realidade de cada pessoa, por isso, a criação de uma resposta que reconheça o envelhecimento na população sem abrigo é fundamental.

As integrações em alojamento estão focadas maioritariamente para a intenção de inserção do mercado de trabalho ou em formação. No entanto, deviam ser considerados outros indicadores como relevantes: o tratar da saúde, a construção de hábitos de rotina, a reconstrução de relações, a realização de pequenas tarefas ou atividades diárias e a participação de outras formas na comunidade. Porque envelhecer com dignidade também é integrar.

Portugal dispõe de respostas sociais para pessoas em situação de sem abrigo e de respostas sociais para pessoas idosas, mas parece existir uma zona particularmente complexa quando uma pessoa em situação de sem abrigo envelhece. A existência de vaga numa Estrutura Residencial Para Idosos não significa necessariamente a existência de resposta. Entre a vaga e a capacidade de pagar existe um problema social.

Existem mecanismos para financiar vagas, mas serão suficientes?

Quantas pessoas em situação de sem abrigo, ao atingir a velhice, são efetivamente encaminhadas para uma resposta residencial adequada?

Temos de reconhecer que o conceito de autonomia muda com a idade e por isso, não podemos desistir das pessoas em situação de sem abrigo pela sua idade. Um alojamento estável e digno é a solução e não apenas um temporário.

De acordo com o inquérito caraterização das pessoas em situação de sem abrigo, da ENIPSSA (Estratégia Nacional para a Integração das Pessoas em Situação de Sem Abrigo 2025-2030) a 31 de Dezembro de 2024, Portugal contava com 14.476 Pessoas em situação de sem abrigo. Em Lisboa, a presença era de 3.122 Pessoas em situação de sem abrigo, sendo 78% do sexo masculino e correspondendo 46% a quem tem entre 45 e 64 anos. Na área Metropolitana de Lisboa temos a percentagem de 10% correspondente às pessoas com idade superior aos 64 anos. É o valor mais alto em comparação com as restantes regiões do país.

As aproximadamente 312 pessoas em situação de sem abrigo em Lisboa que têm mais de 64 anos, podem parecer poucas, mas já são 312 pessoas. E nos próximos anos? A tendência é para aumentar? Precisamos de repensar a intervenção.

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